Ensinar capoeira especificamente para crianças é uma coisa nova e por diversos motivos essa pratica vem crescendo de maneira significativa. Como Mestre de capoeira e educador infantil acho positivo que as instituições de ensino aceitem e reconheçam a capoeira como uma atividade importante , acho também muito interessante observar o crescente interesse por parte de jovens capoeiristas em trabalhar com criança. Enfim, eu que fui um dos pioneiros no trabalho de capoeira infantil no Rio de Janeiro, não posso deixar de observar as enormes mudanças que vem acontecendo nessa área nos últimos 30 anos . Bem, acredito que toda mudança, todo crescimento deva vir acompanhado de uma reflexão para que a pratica possa ter um significado nesse caso, antes de falar de um trabalho de capoeira infantil preciso deixar claro que a grosso modo um trabalho de capoeira com crianças poderia ser realizado a partir de duas abordagens técnico desportivo e educacional, não cabe aqui definir cada uma delas muito menos estabelecer diferenças , mas, não posso dar uma opinião sem deixar claro que todo meu pensamento e minha pratica estão vinculados a abordagem educacional ou seja penso a capoeira como um instrumento educacional com grande potencial para ajudar no processo de desenvolvimento pleno dos indivíduos.
Uma vez que acreditamos no potencial da nossa arte como veiculo educacional passamos a lidar com diversas questões para as quais nem sempre temos respostas, sabemos que a capoeira tem em seus fundamentos elementos de sobra para ajudar nas diversas áreas de desenvolvimento dos indivíduos, a multiplicidade de nossa arte facilita o trabalho nas 3 grandes áreas de desenvolvimento humano (psicomotora, cognitiva e afetivo social). Agora sem duvida antes de partimos para pratica e colocarmos a capoeira a serviço da educação formal eu me questionaria , que educação é essa? Afinal de contas não queremos que uma atividade que tem sido um símbolo histórico de resistência e luta pela liberdade vá agora instrumentalizar um modelo de educação que seja opressor, que “coisifique” os indivíduos. Queremos sim colocar a capoeira a inteira disposição de um modelo educacional que seja essencialmente transformador, libertador e que busque através do dialogo o desenvolvimento de indivíduos que venham a ser sujeito de seu tempo e de sua história. Falei de questões e elas são muitas, por exemplo, que tipo de formação deverão ter os profissionais de capoeira para que estejam preparados para levar a nossa arte para dentro das instituições de ensino formal sem negar que a maioria das contribuições que a capoeira pode dar foi constituída na informalidade. Acredito que deva se criar uma pedagogia própria que leve em consideração o tipo de saber (popular), que é próprio da nossa arte. Enfim é inegável que a capoeira com toda sua riqueza e fundamentos é um sofisticado instrumento educacional, agora precisamos desenvolver um forma coerente de utilizá-lo e preparar os profissionais que vão estar a frente desse processo.